domingo, 8 de maio de 2011

resenha de história do Cristianismo Medieval ou história da Igreja II

LE GOFF, Jacques. O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier. Tradução Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 126 p.
                                                                                                                    Elcione Leite de Paula

Historiador da Ecole des Annales , Jacques Le Goff é especialista no período medieval, sobre o qual já escreveu várias obras, entre elas: “Em busca da Idade Média”, “Uma história do corpo na Idade Média” e “A bolsa e a vida”, publicadas no Brasil pela Civilização Brasileira. Jean-Luc Pouthier é historiador e redator-chefe da revista de história das religiões Le Monde de la Bible.
A obra trata da visão que os homens e as mulheres do Ocidente medieval tinham de Deus. É uma obra peculiar na forma de entrevista em que Pouthier faz perguntas e Le Goff responde de modo esclarecedor.
O autor considera as circunstâncias culturais, sociais, econômicas e históricas da época. Suas ideias são originais e criativas, proporcionando ao leitor um conhecimento novo, amplo, de abordagem diferente (entrevista) no que diz respeito ao Deus da Idade Média. Sua linguagem é concisa, precisa, sistematizada. A obra é brilhantemente apresentada e dirigida principalmente a estudantes de História do Cristianismo Medieval.  
Na introdução da obra, o estudioso afirma que Deus é assunto de história, é busca, objeto de estudo da história. Diferentemente das outras duas grandes religiões, o Deus dos cristãos pode ser representado, como o Deus sofredor, por exemplo. O Deus concreto dos homens e mulheres da Idade Média foi ora o Deus Pai, ora o Filho, ora o Espírito Santo e, ao lado da Trindade uma pessoa feminina: a Virgem Maria (p. 12).
O primeiro capítulo delimita o tema da obra que será o Deus dos cristãos. A partir da Antiguidade tardia, com acontecimentos decisivos como o edito de Milão (313) e o concílio de Niceia (325), o Deus dos cristãos, Deus oriental, se impõe como o Deus único do Império Romano (p. 18). Em 392, Teodósio faz do Cristianismo a religião oficial do Estado. É a transformação da religião perseguida em religião do Estado e a transformação de um deus rejeitado em um Deus oficial (p. 19). O deus de Cícero é o do paganismo greco-romano. Quando chega o Cristianismo, o Senhor Deus assume um D maiúsculo. É a tomada de consciência da passagem para o monoteísmo (p. 20). O Cristianismo medieval, especialmente a beleza de Cluny, oferece redes muito estreitas de lugares de culto: as capelas, os cruzeiros acrescentam-se às igrejas. O instrumento essencial do culto é a oração e o lugar para isso é o coração do homem e da mulher (p. 25).
O segundo capítulo aborda a importante figura da Trindade: o Espírito Santo. As virtudes humanas são dons do Espírito. A partir de Santo Tomás de Aquino, no século XIII, é reconhecido que o Espírito Santo age por seus dons na vida espiritual e moral do cotidiano dos homens, sua ação torna-se mais presente no meio urbano, onde as confrarias constituem frequentemente uma espécie de duplicata das corporações (p. 49). Dentre as imagens da Trindade, pode-se destacar a “Trindade gloriosa”, a qual aparece na Coroação da Virgem, que não é mais coroada exclusivamente por Jesus Cristo, no momento elevando Maria a sua “divinização” (p. 55). O fim da Idade Média é apresentado pela história como um período de crise, de peste (1347-1348). Todas as infelicidades fazem com que os homens e as mulheres se tornem mais sensíveis ao Cristo da Paixão e, ao mesmo tempo, procurem uma proteção. A partir daí, há o desenvolvimento do papel do Espírito Santo e a promoção da Virgem Maria (p. 58).
O terceiro capítulo trata da afirmação de que o Deus dos cristãos é um Deus antropomórfico, um Deus pessoal, o Bom Deus que supera os judeus deicidas. Entre as pessoas da Trindade, aquele que preenche melhor a função de dominação em estilo monárquico, é Deus Pai (p. 72).
O último capítulo fala do conflito entre devoção individual (eremitas e anacoretas) e devoção coletiva (leigos e Igreja). No curso do século XII, os principais instrumentos de dominação da Igreja foram a consolidação da teologia e a prática dos sacramentos (p. 88). A instituição da confissão auricular anual, em 1215, assegurou, através do confessor, o contato direto entre o penitente e Deus. Um exercício espiritual garantia equilíbrio entre as relações diretas e indiretas do homem medievo com Deus (p. 98). Este não executou milagres mudando as leis da natureza, limitou-se a manifestar seu poder sobre ela “a tempo e a hora” (p. 103). Desde o início do século XIII, com São Francisco de Assis, o humanismo do fim da Idade Média é marcado pela imitação de Jesus Cristo (p. 114).   
O historiador conclui que, do ponto de vista do dogma religioso, a grande novidade da Idade Média foi a substituição do politeísmo pelo monoteísmo. Fala das distinções perceptíveis entre as pessoas da Trindade, do ponto de vista da crença e da promoção da Virgem Maria. Le Goff fala ainda do antijudaísmo da Idade Média que se tornou o antisemitismo racista e político do século XIX. Segundo ele, o Deus dos judeus era rejeitado pelos cristãos da Idade Média, junto com os falsos deuses, entre os quais, o tão desconhecido Deus dos muçulmanos (p. 121).
















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